A cada dia vivido
Reverencio a soma
De pequenos-grandes fatos
Que me ganham...
Saboreando mais do que nunca,
Doces caseiros,
Ao invés de minúsculas e amargas
Mesmices,
Perfeitamente dispensáveis...
Poupando-me de matérias sangrentas
Futilidades modernas. Enlatados diversos.
Não raro, deleto, ruídos nada bem quistos...
Lanço mão da tecla "mute" para,
Meu capricho sorrir.
Eliminando durezas pequenas
No estilo - instinto de sobrevivência
Irrelevantes gotas
Perto do Mar intenso
O mesmo que nadei
Pra chegar até aqui
Acolhendo poucas e raras causas
As quais acredito e me sinto
Pronta a abraçar.
Se a vida é assim tão rápida e breve...
Então é respirar com jeito e sem pressa.
Pôr em prática a bênção dos sentidos...
Calar e dizer,
Como somente o coração bem sabe,
Para então dormir em paz.
by L.L.
Eis que me surge
Bendito
Cheiro de chuva
Acariciando a saudade...
Lá vem ela,
Lavando a secura
Do mato,
Do asfalto...
Dos bichos
Da Terra...
Abro a janela do carro...
Bendito ar umidificado!..
Lá vou eu,
Cortando estrada...
Rumo à outra cidade
Vez por outra
Um pássaro desliza suave e lindo...
Daquele jeito livre
Inimitável...
Sem pressa
Roubando pensamentos...
Rasgando
O céu feliz
Do meu Cerrado
by L.L.
Jamais saberei dizer
O quanto e como cresci
Nos últimos dois anos
Especialmente no último mês
Estou na fase de lembranças
Que parecem mesmo um filme, e sempre a voz de minha mãe
(Feito um curativo à dor intraduzível, que o peito sabiamente, esconde tão bem):
- "Deus te abençoe."
Amorosa.
Espirituosa.
Extremamente sensível.
Canceriana teimosa na arte do viver.
Parece que foi ontem,
Me despedi sem saber...
No íntimo, já sabendo.
- Mãe, Jesus te proteja e N. Senhora também!
- Você também.
As estrelas foram testemunhas,
Na volta pra casa,
Da pequena lança fincada,
Aonde bem, não sei.
Nem quis muito compreender.
Hoje, em resumo,
Suspiro fundo, e digo:
- Eu sei... Que foi melhor assim.
Sei bem que onde ela estiver,
Tudo são rosas... Como ela tanto gostava.
Um jardim multicolorido,
Sem dores... E de volta, sua memória,
Da missão dignamente cumprida.
Meu pai ali, sorrindo, falando da ausência de dores,
E que com o tempo,
Os filhos amados que aqui deixaram
Saberão serenar a dor da saudade...
Ficaremos em paz.
Mas é que minha fonte
Precisa jorrar...
Entenda-me, Deus!...
Preciso, vez por outra,
Chorar.
Ganhei nome de batismo,
Carinho e tanto mais...
Então permita-me que hoje
Eu me traduza assim,
Entre o vazio da falta
E a certeza
De que onde ela estiver,
Já não sofre mais.
by Liza Leal
Ah!...
Arrepios na pele
Tremor na aura
Desses que sacodem
De leve...
Instantaneamente
Faz calar a fala...
Solitariamente
Sensível...
Viajante...
Sensitiva...
Ah!...
Mar de sensibilidade
E suas ressacas...
Pôr do sol
Que transborda
Entre gotas de sal...
E feito mini cascatas,
Desaguam...
Cenas de um filme
Da vida real...
by L.L.
Hoje especialmente
A poesia talvez não tenha a cadência
Suave de um riacho...
Ou talvez as palavras
Aqui não caibam
Não tenham cara de luau.
Não,
Não vou dizer que sinto-me
Em frangalhos...
Desarmei-me..
Falei com Deus...
Por certo Ele,
Fitou-me cuidadosamente,
Como de costume...
Viu e sentiu um tremor escondido
Hoje meu anseio é beber forças
De um pôr do sol risonho
Respirar esperança
De dias vindouros,
Sem DORES,
Sem fios de UTI...
Mas sim o brilho no olhar
De minha mãe
O meu maior desejo
Tem nada
E tudo a ver,
Comigo...
É imaginar que o destino
Tem riscado uma estrada
De luz Divina
Um novo amanhã...
À quem luta bravamente
Pela vida..
Definitivamente,
Toda vez que penso numa palavra
Para definir minha mãe
Só me vem:
CORAGEM
Que Deus faça o melhor,
No tempo Dele.
L.L.
Nossa fissura
Tem um toque
Tragicômico
Uma pegada
Telepática
Supersônica
Vez por outra,
Barco à deriva...
Ondas de bem...
E malquerer
Viro as costas,
Teu destino
Pouco importa
Até que seus passos
Num passe de mágica,
Sejam fisgados
Pela intempestiva
Química da saudade..
E você sabe,
O decreto que carimba
Nossa "liga"
É declaradamente
Indecifrável
Porque é impossível
Entre nós, haver mágoas...
Imagine então
Quando nossas línguas
Se cruzam... Se cruzarem,
E falarem a língua
Que a matemática do mundo
Escasso tempo tem
Pra se dizer
by L.L.
- Bom dia! - A bênção, Mãe!...
No rosto, um riso tranquilo... Olhar curioso. Corpo franzino. A voz branda:
- Deus te abençoe!
Perguntei como estava. Sorri. Respondeu que - bem.
Outros idosos em volta.
Minha filha também pede a bênção. Ela responde, com o mesmo olhar curioso. Admirada e ao mesmo tempo, a postura meio que alheia...
Olhei a pantufa que usava. (Fui eu quem dei, quando a memória era mais viva). Me identifiquei, falando meu apelido, e o nome de minha filha.
Veio o jantar por volta das cinco. À ela servi, calmamente.
Perguntei se estava bom, disse que sim. E também se ela gostava do lugar, das pessoas... O gesto foi positivo.
Fui buscar água. Pelos corredores, alguns me observavam, com aquele olhar de criança. Cumprimentei, conversei com alguns.
Voltei para junto dela. Tomou a água sozinha.
Comentei com ela do resfriado terrível que sofri dias atrás, de um modo que
ela entende bem, com o humor típico nordestino, próprio dela:
- Mãe, peguei uma gripe de égua. Só faltei ficar de quatro. O trem foi feio!..
Ela sorriu, dessa vez um riso largo. E sussurrou algo, tipo: - Oh meu Deus!..
Falei, dessa vez com a voz embargada: - Senti falta do seu chá. "Chá de mãe". Sinto falta do seu café... Em fração de segundos pensei:
- Vou chorar quando estiver na estrada, rumo à minha casa, do meu jeito.
Ficamos mais um tempo. E o tempo venceu, apenas naquele dia. Então a acomodamos numa cadeira de rodas. Levamos até uma funcionária da clínica.
Nos despedimos. Dessa vez ela abençoou com firmeza na voz. Eu disse, de todo coração: - Mãe, fica com Deus!.. Nossa Senhora te proteja.
Ela disse: - Amém. Você também.
Fomos embora, completamente dividida. Nenhuma lágrima. Só alimentei, além da saudade que já brotava, o sentimento de FÉ... A certeza de que minha mãe está sob a divina proteção, e que nem sempre temos os remos do destino. E por mais que uma situação "X" seja vista a olho nu, somente quem saboreia, quem atravessa literalmente o caminho, é quem pode sintetizar o valor de um sentimento genuíno de dor e resignação.
Minha mãe tem mal de alzheimer. Vive num local com estrutura e cuidados adequados para tal problema, pois devo admitir, não sou capaz de atende-la cem por cento, com os devidos cuidados. Seria desleal de minha parte, se assumisse tal missão. Porém, me faço presente de acordo com minha capacidade. Se é fácil... Decididamente não. O nó no peito não se desfaz. Porém, não há um só dia em minha vida que não mentalizo o seu melhor. E então não levo a sério a distância. Em prece, entrego-a, não só em datas marcantes, mas a cada vez que bate a saudade... Aos cuidados especiais de JESUS CRISTO.
L.L.